sábado, 9 de janeiro de 2010

Barra Grande: um tesouro escondido no coração do Delta



Ao redor da pequena praça, há uma igrejinha chamada de Nossa Senhora da Conceição. E mais: uma panificadora, um minúsculo mercantil, um depósito de bebidas e uma churrascaria (dublê de pizzaria) além de um posto da secretaria de turismo (sempre fechado) e uma lojinha de acessórios de praia com o nome sugestivo de Aquântica (uma alusão à Atlântida, o continente perdido, acho eu). O resto do pequeno povoado é composto de casas de médio e pequeno porte dos moradores da região, a maioria, pescadores e plantadores.

Barra Grande seria mais um povoado brasileiro, de dois mil habitantes, entre os milhares que existem, se não fossem por pequenos e significativos detalhes. A começar pela sua privilegiada localização, na Costa do Delta do Rio Parnaíba. Constitui Área de Proteção do Delta (APA) que pertence ao município de Cajueiro da Praia, emancipado há apenas 13 anos e nascido da vontade popular, fruto de um plebiscito entre os nativos.

Barra Grande é uma espécie de Jericoacoara nos anos 80 e foi surgindo assim de pouquinho. Ainda está surgindo, pra falar a verdade. E não pergunte às autoridades estaduais e nem ao prefeito de Cajueiro como se deu este surgimento. Eles não têm a mínima idéia. Aconteceu. Amantes da natureza em seu estado mais puro, gente do mesmo nível cultural e artístico foi chegando e se abrigando em casas bem descontraídas, confortáveis e montadas com material da própria região (pedra, palha da carnaúba, e tijolinhos rústicos). Dos municípios criados recentemente, Cajueiro da Praia é o mais evoluído, opina o médico parnaibano Ariosto Ibiapina, um apaixonado e ferrenho defensor daquela região. É o proprietário da mais famosa pousada existente em Barra Grande, a BGK, onde tudo começou



A presença do estrangeiro é marcante no pequeno povoado. Eles são atraídos pela lei da gravidade, ou melhor, da afinidade. Alguns possuem pousadas e já se adaptaram perfeitamente ao cenário da região. Outros fazem o turismo sazonal: de agosto até novembro há um fluxo maior de italianos, franceses e portugueses. No final do ano, a presença maciça é do turista do leste europeu, vindo da Polônia, Áustria, Hungria e Alemanha. Além da natureza exuberante e primitiva, há ali um esporte radical que atrai este fluxo de estrangeiros, principalmente, entre agosto a novembro, quando os ventos sopram mais fortes. É o Kite Surfe, uma prancha de surfe que é controlada por uma ripa. Filipe é um desses esportistas, um sul africano loiro dos olhos azuis (foto abaixo), totalmente destoante do tipo nativo da região, mas completamente enquadrado na paisagem democrática de Barra Grande. Bem à vontade, ele sorri feliz para a fotografia ao sair do mar enquanto monta e desmonta o seu equipamento.

O perfil do turista mais jovem vai em busca de aventura e algo novo. Os mais maduros vão em busca de água quentinha, mar manso e muita tranqüilidade. Nada de badalação. Aliás, não fazer nada é a maneira mais inteligente de passar o tempo por ali. Apreciar o pôr do sol à beira mar é programa garantido quando não está chovendo. Como o aeroporto de Parnaíba (a 60 km de Barra Grande) ainda não está operando, eles descem em Fortaleza e vêm margeando a Costa do Atlântico até chegar ao pequeno e charmoso povoado.

Alguns chegam a pagar 800 reais pelo táxi do aeroporto de Fortaleza até Barra Grande onde demoram, em média, cerca de 10 a 15 dias e formam uma clientela fidelizada. Ao voltarem, no ano seguinte, trazem novos amigos. Quando houve o Campeonato Internacional de Kite Surfe, o filho de um primeiro ministro russo aportou por ali com toda a parafernália de segurança de ministro de estado. Mas os nativos não ligam mais para isso. Já se acostumaram.

O caldo e a moqueca de sururu (peixe da região) além da peixada com pirão, a moqueca de arraia e o caranguejo se misturam à pizza e a outras manias internacionais nos poucos e bons restaurantes ou barzinhos das pousadas. Detalhe: as ruas da orla marítima não têm calçamento. Asfalto? Nem fale nesse nome em Barra Grande que a grita é geral. O pessoal dali é ecologicamente correto e mesmo dentro das pousadas a areia branquinha é a grande vedete. Nem pense também em levar salto alto (como eu fiz). Só sandálias baixas ou havaianas. Dentre as manias internacionais, o Arguilè (famoso cigarro árabe) tem o seu espaço garantido ali também. Para fumar, você desembolsa vinte reais. Caro? Você não viu nada ainda.

O caldo e a moqueca de sururu (peixe da região) além da peixada com pirão, a moqueca de arraia e o caranguejo se misturam à pizza e a outras manias internacionais nos poucos e bons restaurantes ou barzinhos das pousadas. Detalhe: as ruas da orla marítima não têm calçamento. Asfalto? Nem fale nesse nome em Barra Grande que a grita é geral. O pessoal dali é ecologicamente correto e mesmo dentro das pousadas a areia branquinha é a grande vedete. Nem pense também em levar salto alto (como eu fiz). Só sandálias baixas ou havaianas. Dentre as manias internacionais, o Arguilè (famoso cigarro árabe) tem o seu espaço garantido ali também. Para fumar, você desembolsa vinte reais. Caro? Você não viu nada ainda.


Imagine que o metro quadrado de um terreno próximo a orla, chega a custar cinco mil reais. Em Teresina, não chega a três. Terrenos e casas de pescadores estão sendo oferecidos – pasme - pelo preço de 200 a 300 mil reais. O arquiteto Gerson Castelo Branco, está vendendo o seu, de cinco mil hectares, pela bagatela de um milhão de reais. E se eu fosse você compraria logo, antes que o preço – e a especulação - aumente.

Mas falta muita coisa ainda em Barra Grande. E o principal: infra-estrutura mínima e necessária. Ouvi dizer que existem projetos de saneamento, abastecimento de água de boa qualidade (a atual ainda tem cor marrom) e de aterro sanitário com dinheiro garantido do governo federal, mas todos travados pela burocracia (ou seria burrocracia?) pública oficial. O secretário de turismo Silvio Leite tem boa fama por lá, dizem que é um grande entusiasta da região. Mas precisa correr mais, antes que o turista desapareça para sempre. Nos últimos dias que passamos ali, faltou luz e água por 20 horas seguidas. Foi um caos. Sem água até para o consumo, muitos turistas de outros estados brasileiros e de Teresina, viraram as costas para Barra Grande. E os empresários das pousadas e restaurantes, ficaram a ver barquinhos, literalmente, contando os prejuízos.

A palavra turismo pode significar muito para os habitantes de Barra Grande. Carros e motos são proibidos de passar pelas praias e em alguns outros lugares do vilarejo. O aluguel de carroças por um passeio excêntrico como este - conduzido por um nativo - pode render para ele a quantia de até oitenta reais. E o turista – geralmente gringo – paga sorrindo e sem reclamar. Zeladoras, arrumadeiras, jardineiros, marceneiros e outros serviços do tipo, são contratados entre os nativos para o trabalho nas pousadas e restaurantes locais. O que significa que o dinheiro circula, circula e não sai do local. A língua também não é o problema principal, já que a mímica e o portunhol quebram o galho, quase sempre, quando se trata de estrangeiros.

Mas o tesouro principal de Barra Grande está escondidinho na sua fauna e na sua flora. Considerada uma região ecologicamente importante e, por isso mesmo frágil, espécies muito raras do peixe boi (em processo de extinção) fazem ali o seu habitat natural no estuário do rio Timonha. É também o local (Lagoa do Santana) de migração de aves que vêm do Canadá e vão para a Patagônia. Como é que é? Patagônia? Isso mesmo. E para não dizer que estou a delirar ou dando uma de eco maluca, elas vêm aniladas e numeradas, para que se saiba o seu trajeto. Muitas vezes, com bilhetes de agradecimentos e informações adicionais do destino de origem.

É também lugar de desova das tartarugas de couro (foto abaixo) e ninhal de garças e colhereiros, que são aves que vêm do Pantanal, já próxima à região andina. E como se isso tudo não bastasse, Cajueiro da Praia, na foz do rio Camurupim, é o lugar predileto de vários tipos de cavalos marinhos. Este simpático candidato à extinção tornou-se o símbolo de Barra Grande. (foto abaixo de André Galhardo). Com tanta riqueza ecológica junta, temos que lamentar a falta de envolvimento do piauiense com o desenvolvimento desse santuário ecológico, que está sendo ocupado, pouco a pouco, por pessoas de outros lugares do Brasil e do mundo. Conta-se nos dedos os que estão realmente envolvidos com o lugar. Mas eles existem, justiça se faça e desenvolvem ali um trabalho super legal.

A população do povoado, esta sim, está bem envolvida e dá até o exemplo, vendendo sacolas de pano com a intenção de salvar o planeta de um bicho esquisito chamado plástico. Um cartaz da Ecolive, na única padaria do lugar (em frente à pracinha da Igreja) é exibido com o preço de sacolas de panos. Vinte e dois reais, a unidade. Carinho, né? Mas nada é barato em Barra Grande, uma estratégia para frear a “invasão” aleatória de turistas mal educados e insensíveis à causa ecológica.

Na panificadora Osvanilde, além do pão nosso de cada dia, o visitante, se não for muito exigente, pode encontrar o básico do básico. Numa desses passeios vespertinos, encontrei “o paulista”, um senhor de pele muito curtida pelo sol chamado Hélio (mais conhecido por paulista) e que mora no povoado há bastante tempo. E ele não é o único. Há alguns paulistas morando em BG. Este “paulista”me fez uma confidencia surpreendente: que Barra Grande é o melhor lugar do mundo para viver. Quando falta trabalho, ele pesca ou “caça” caranguejos nos mangues. E assim, o “paulista” vai levando a sua vidinha num ritmo tropical e quase sonolento em cima de sua “bike” e só se entusiasma quando é para falar das coisas que o prefeito deveria estar fazendo – e não está- para atrair mais turistas ao local.

A Igrejinha, que passa por uma pequena reforma, vive fechada desde que o padre alemão - que morava em Cajueiro da Praia - foi embora. Bati com a cara na porta umas três vezes. Agora a população vive a mercês da bondade de D. Sônia, uma nativa que celebra os rituais cristãos, geralmente nos finais de semana. Fátima, uma nativa morena de 25 anos, ao contrário dos paulistas, não vê perspectivas para os jovens daquele pequeno lugarejo. Faltam cursos profissionalizantes, inclusive de atendimento ao turista, queixa-se ela. Para Fátima, o turismo por ali pode ser uma faca de dois gumes: “muitas jovens ainda se empolgam com a conversa do turista estrangeiro e vão na onda deles”, diz desconfiada.

Enfim, posso ficar escrevendo aqui horas a fio sobre o charmoso vilarejo da costa piauiense, mas nada vai chegar nem perto do que representa realmente aquele lugar. Acordar logo cedo com o sol dos trópicos invadindo a sua cama (ou rede) e escutando o som das ondas do mar quebrando bem pertinho de você, além do ruído aconchegante das folhagens e dos coqueiros a balançar ao doce sabor dos ventos mais famosos do Brasil é, sem dúvida, um jeito muito original de despertar e de lembrar, logo cedinho, que você não está num lugar qualquer, mas no coração do delta mais famoso das Américas, o Delta do Rio Parnaíba.
Só para lembrar, Barra Grande está no Guia de Ricardo Freire: 100 praias que valem a viagem.

Confira pessoalmente ou acesse os seguintes sites: www.barragrandekitecamp.com.br ou ainda www.ventosnativos.com.br ou ainda www.barragrandedopiaui.com.br

fonte:http://www.portalaz.com.br/coluna/marta_tajra/151794_barra_grande_um_tesouro_escondido_no_coracao_do_delta.html

Ismailon Moraes

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